quarta-feira, 30 setembro , 2026

Árvores que não morrem 

Eu amo o Natal. Você não? Tudo bem. Há quem se encante, há quem se recolha — cada um vive essa data ao seu modo. 

Esta crônica foi escrita em dezembro de 2015, exatamente um ano após a morte de mamãe, que partiu no dia de Natal do ano anterior. Papai, por sua vez, de tanto amor, escolheu partir logo depois dela, deixando nossa família experimentar o maior vazio de nossas vidas até então. 

Eu ainda estava muito sensível com a ausência dos dois. Aliás, vivíamos um luto profundo.  

Mamãe sempre fora referência de união, de fé e de alegria — daquelas mães aglutinadoras, festeiras, que fazem falta antes mesmo de ir. Sinto isso até hoje quando ouço a canção Poema, de Ney Matogrosso.

Quando as primeiras luzes e toda a movimentação anunciaram a chegada do Natal, vieram também as lembranças, a saudade e o choro. A saudade, porém, me carregou direto para a infância. Era comum mamãe nos mandar para o banho mais cedo e, consequentemente, para a cama. Ela sabia da nossa ansiedade pelos presentes deixados de madrugada sob a árvore. Por isso, quando o dia clareava, eu e meu irmão já estávamos de olhos arregalados, tentando adivinhar qual pacote o Papai Noel havia deixado para nós. 

A saudade apertou ainda mais quando lembrei das tantas árvores que mamãe inventava a cada Natal. Para nos surpreender, um ano ela escolheu uma árvore natural — provavelmente um pinheiro que papai buscava longe com sua Kombi. Eu e meu irmão éramos responsáveis pela rega diária, garantindo a plenitude daquela que guardaria nossos tesouros mais preciosos: os presentes. 

Em outros anos, a criatividade de mamãe florescia em galhos secos; em tempos mais fartos, surgiam as árvores artificiais, sempre acompanhando a moda. Lembrei-me das árvores brilhosas — que luxo!

A primeira foi uma árvore prateada, de quase um metro, presente de uma tia rica, que havia comprado outra mais moderna, dourada. Mamãe comprou os enfeites e, de repente, nossa casa brilhava mais do que nunca, como se a alegria tivesse acendido luz própria. 

Mas o tempo é implacável, e a árvore prateada começou a se desintegrar. Mamãe, no entanto, nunca perdia tempo: com cola, bolinhas de isopor e uma paciência quase sagrada — junto da nossa bagunça infantil — foi recriando galho por galho. Colocava em nossas mãos punhados generosos daquelas bolinhas grandes, médias e pequenas e, assim, ganhamos uma árvore coberta de neve. A árvore — e a casa toda. 

No ano seguinte, mamãe inovou, ainda animada com a festa que foi aquele Natal das bolinhas de isopor. Papai conseguiu uma pequena arvoreta com galhos secos de quase dois metros e, por dias, ficamos montando a nova árvore com cola, as bolinhas e uma grande novidade do comércio: spray prateado. 

A montagem já era um presente. Mas, para finalizar aquela lindeza, mamãe improvisou: um balde enorme, cheio de areia e terra, recoberto de papel craft amassado e pintado de prata. Algodão e barba-de-velho completavam o cenário, e algumas bolas de vidro — sobreviventes de outros tempos — brilhavam nos galhos. 

Tínhamos a árvore, tínhamos a mesa farta, os presentes abertos no amanhecer, os abraços, a alegria e a gratidão pelo bem mais precioso: o verdadeiro espírito de Natal.

Fechando os olhos — agora sorrindo — vejo nitidamente meus olhos de criança refletidos no vidro da bola que pendurei naquele galho tão simples, tão lindo, tão nosso. 

 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

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